Minhas duplas:

primo delirante

resto fantastico

Semana doze, dia doze mas são quatro da manhã. Doze por quatro são três. Vezes doze são trinta e seis; Na trigésima sexta, o que terá sido de mim? Quero carne, feijão, farofa. Mas quebro dois ovos na frigideira. Apoio a testa na mão. Vibro de fome, respiro para explicar que os ovos precisam de tempo. Um ovo é estranho. O Cotovelo no granito ao lado do fogão. Respinga quente. Abre o olho. Quem falou? O ovo frito? Olho o olho do ovo. Bolhinhas de óleo saem por uma fissura delicada na clara. Duas manchas vermelhas estampam os olhos na gema. A clara e a gema parecem a cara do ovo. Óleo borbulha pela boca falante, resmungo. O outro é normal. O um é seu primo delirante. Tenho muita fome. Como quase tudo. Jogo fora o resto fantástico.

Flavia Castro

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Glicerio

Glicério, bairro com glicerina. Sem Glicério seria só Aclimação ou Cambuci – talvez, Vila Mariana. Com Glicério tudo muda porque é gostoso dizer Glicério, é quase pornográfico dizer Glicério, uma luxúria dizer Glicério. Gosto de Cambuci; Aclimação, menos. Mas Glicério é foda porque a língua pontuda encosta no céu da boca e depois Cambuci, apesar do “buci”, ainda é muito tímido; já Glicério é aberto, extrovertido, puto – na quebrada você tropeça e Glicério, bem ali nas cinco esquinas, o Glicério se abre.

Marcos Gomes

Enfadonha

Encrenca enfadonha é você repetir o mesmo erro e achar que discutir de novo vai mudar alguma coisa. Fala, fala, fala, embrulhando o resultado da conversa que é um só e você sabe: já falamos sobre isso ontem, antes de ontem e desde sempre. Não sou eu quem procura encrenca. Você grita, esperneia e me irrita como um alarme murcho que acusa sempre o mesmo crime.

Niobe Cunha -26 de outubro – dois pares de palavras (encrenca enfadonha/ alarme murcho)