Resposta

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Proposta: ‘Haicai’ de Luiz Tatit na voz da Sofia

Spolier (Caio Marabesi)

E ele disse que era simples, mas de coração, e quando começou foram uma, duas, quatro. Que o céu não tem estrelas como esta que está no chão. Que o caminho é de mistério, o mar profundo, sem solução. Que boemia sem sentido, simulacro de festa, era o mundo sem aquela versão – estava falando de mim? – Eu disse que era por aí, “boemia sem sentido”, “simulacro de festa”. Daí, acho que ele pensou em voltar, achou que eu não prestava atenção. E mais duas, três, quatro. Que a vida é desmedida, e filosofia é a razão – quase!, poderia ser “Sofia”. Que a ti, poesia, não te expulsaria, da República de Platão – novamente, era sobre mim?. Algo assim, nesse sentido. Mas dessa vez eu não disse nada. Foi aí que ele me falou que eu era dispersiva, que eu não ouvia, e que, na verdade, eram, os seus textos, melhores. Então me falou de combinarmos outro dia, mais uma vez, que era pequeninha, um haicai. Falei pra vir até em casa, ser surpreendente – como eu queria! Será que ele diria? -, acho que subiu a árvore. Ah, lua cheia!/ nem mesmo um rosto bonito,/entre os presentes. Como assim, “nem mesmo um rosto bonito”? Não atendi, por motivos pessoais. Nem era dele, o poema. Por fim, ele queria, de novo, marcar, disse que era importante, que tinha praticado, iria melhorar. Foi na danceteria. E ele começou: Coragem e ânimo,/ hesito entre duas palavras…fiquei pensando se ele diria – como eu queria! queria muito! -, e ele falava, falava, mas não dizia. Eu só fiz dançar, fiquei à vista, na pista de dança. Ele insistia em que eu não ouvia. Então ele disse que tinha um do qual eu iria gostar, é curto, são poucos versos, mas dizem o fundamental, escuta esse vai. Fiquei na expectativa, ansiosa por ouvir – ele diria! Em poesia! -: Nossa temporada é conhecida/ a morte é um spoiler/ espalhado pela vida. O que era isso? E daí comecei a me mexer bastante, fazer um passos sem sentido, muitos, rodopios, pulos, gritos, girando, a dançar em nome da revolta, do escândalo que era não ouvir ele dizer. Então ficou gritando no meio da pista que se eu não tivesse entendido, ele explicaria, interpretaria, analisaria, “é um ‘spoiler’, entende, daí não tem surpresa, é a vida sem surpresa…”. Sofria! Do jeito que ia indo, ao contrário do que me diziam, no fundo, ele nada queria.

Comparação

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Proposta: escolher um adjetivo para um personagem e escrever um texto curto em que o adjetivo esteja implícito.

Ardida (Lucimar Bello)

Uma afta na boca, começada de agora, ardida e molhada;

um sapato novo de calcanhar alto, morde a pele branca sem sol;

a cutícula levantada do dedo mindinho, gruda nos fios de lã e faz o dedo encolher de ardume.

Nariz (Marina Leão)

Era homem de um livro só.

Começava sempre seu profundo pensamento filosófico de botequim com um “veja bem”. Balançava a cabeça ao andar, como aqueles cachorrinhos que os taxistas colocam no vidro de trás.

Não dava uma vírgula, como aquelas motosserras histéricas derrubando freneticamente os troncos de eucalipto sem um espaço concedido ao lenhador.

Ou como a britadeira lá fora, no asfalto, que ensurdece as pessoas, não dando, a quem quer que seja, tempo para uma gota de silêncio, de pensar.

Era o iluminado de sua própria tocha.

Sóbrio (Raquel Pais)

Ele era assim como uma floresta, tanto de escura como de clara, sabíamos sempre que a encontraríamos: sépia de dia, branco e negro de noite. Ele era assim, como o sobretudo do teu avô, o meu avô, que trabalhava com têxtil. Poderia ter tido um sobretudo diferente do teu, mas não tinha. É esse sobretudo, que ele é. Sóbrio, comprido, azul escuro, reto e suave. Sóbrio como uma verdade sem malícia, como a honestidade sem véu. Ele era sóbrio até quando ria, ria sem perder a seriedade, enrugando o olho sem o fechar, sóbrio para ver sempre, sem iludir nada, sem esconder nada. Sóbrio como o mel de sempre, na torrada de todos os dias.

Ele era um lago com cheiro a pinheiro, sóbrio de resistir às estações que o tentavam a esvaziar-se ou encher-se. Tinha a seriedade na ponta dos dedos, ossudos e longos, como o pianista que quase fora, como o violinista que quase era, como o pintor que seria, ainda. Sóbrios dedos, de sóbria temperatura. Sóbrio no abraço, na carícia, no afago. Sóbrio como a floresta que firme, ainda dança para o teu olhar. Sóbrio como o tempo que passava, colorido e por colorir, deixando o rasto de um caminho, que ele sóbrio, não me deixava fazer sozinho.

Solipsista (Paulo Ludmer)

Deixava-me tão perto quanto uma gata. Me afastava, de gata.
Marcava cafés na hora e local que lhe interessavam, felina não se subjugava.
Dizia tudo, ouvia desatenta.
Pedia opiniões sobre suas urgências, mas a sua era pré-moldada.
Roupas transparentes, corpo travado. Lúbrica e desértica.
Bebia importados, não abria a bolsa.

Medo (Miriam Mermelstein)

Não saía de casa, a não ser em dia de sol forte, acompanhada. Diziam que tinha medo até da sombra, mas medo ela tinha do escuro. Como se invisíveis seres com garras poderosas alçassem do chão e a levassem para além da casa, da rua, da cidade, da terra que, a ela, pareciam dominadas e se visse num descampado sem paredes e sem espelho paraatestar sua existência.

Contradição?

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Proposta: Escrever um pequeno texto que mostre características contraditórias em mesmo personagem.

Ela (Juliana Sabbag)

Monta na extrusora, segurando a estopa embebida em óleo. Limpa o filtro da bomba, sujo de plástico fundido; arregaça as mangas e ergue a barra da calça respingada de graxa; finalmente, enfia a mão tubo adentro e suga a massa quente que entope a máquina.

O batom vermelho é o último retoque. As portas se abrem e ela aparece, estonteante, num vestido beterraba de alcinha e costas de fora; o salto agulha 10 completa o traje. No pescoço, uma jóia de família. Num discreto rebolado, avança, uma perna na frente da outra. Beija os pais e senta-se com os convidados “Queridos, estão bem servidos?”

Madrid (Raquel Pais)

Atendia desde sempre ali. Duas salas divididas por três degraus de escada, colocados só para atrapalhar os pedidos, fazia questão de dizer a quem entrava pela porta.

Que querem?

E os clientes ainda escolhendo a mesa. Ia-se refonfunhando em voz baixa, visivelmente chateado com tais indecisões. Voltava. Chamem-me quando se decidirem! Ia-se sem deixar cardápio, nem sugestão nem sorriso.

Chamado a medo, revirava os olhos e vinha arrastando os pés. Croquetes, batata brava, cervejinha. Olhava em volta, revirando os óculos. Debruçava-se acotovelando a mesa. Olhem amigos, peçam os calamares e a cerveja a copo, fica mais econômico e é mais gostoso.

Levantava-se com cara de enfado e ia-se, sem levar a perplexidade e o agradecimento.

Sabe-tudo (Marina Leão)

Rogério andava pelo seu bairro, olhar altivo, sempre uma palavra de entusiasmo para um que viesse lhe pedir conselhos. Diplomado no curso técnico em conserto de TV, sabia tudo de circuitos e chips. Sabia dar conselhos geniais.

Bate a porta casa adentro, na hora do almoço. Fritar o ovo de todos os dias. Esquento o óleo primeiro? Como bato a casca na quina da panela sem que aquela gosma me borre todo?

Nunca uma gema inteira no pãozinho. Morre de fome o sabe-tudo.

Cão (Miriam Mermelstein)

Saiu de casa bufando. No único dia da semana que poderia dormir até mais tarde, foi acordado por uma voz falsa simpática: – Bom dia, o sr. conhece os serviços da Telemar? – Não conheço e antes que eu esqueça, vai tomar no cu.

Na rua, lembrou que havia esquecido o bilhete único e o casaco de chuva. Bufou novamente. Os pingos grossos o obrigaram a correr, puta-merda, até a boca do metrô. Escada rolante em manutenção. Na escadaria um vira-lata dormitava.

O cara pensou em pular o degrau, mas, antes disso, o cão se antecipou e abriu os olhos remelentos; abanou o rabo e cumprimentou o cara, que sorriu, desarmado.